Inclinou a cabeça ligeiramente, pousando despreocupadamente a fronte sobre os dedos. Um equilíbrio digno de Rodin. Sentiu o calor a chegar, mas tarde demais… os olhos fecharam-se sobre si mesmos.
Foram só uns segundos.
Bateu as pestanas pretas com força (ah, pestanas dignas de criar e destruir universos). Bateu as pestanas com forças e o relógio parou. O tempo parou, o vento deteve-se nas folhas, tudo se aquietou. Ela sentiu uma ligeira náusea pela falta de movimento, como se o seu corpo não se reconhecesse. Esticou mentalmente cada dedinho, do polegar ao indicador, da esquerda para a direita, da mão ao pé, a cada momento pesquisando os ficheiros da memória, seleccionando fragmentos de tempo em que aqueles seres inertes foram vida. Inspirou sem sorver um grama sequer de oxigénio. Em pânico precipitou a caminhada e tombou pesadamente. De volta à cama.
Foram só uns segundos.
Retomou a si enquanto a observavam, qual passarinho enjaulado ou atracção circense. Penteou rapidamente o cabelo preocupado, assumiu papel equilibrado equilibrista. Sorriu e disse: Foi só um susto, nada a temer. As engrenagens foram oleadas, a máquina ligou, o comboio partiu. A cortina fechou-se e ela cerrou os olhos. Bateu as pestanas bateu, atirou-se contra a cama, atirou-se em contra-mão e nada. O sonho havia partido.
MD
Sem comentários:
Enviar um comentário